Livro de julho: “A Trança de Inês” de Rosa Lobato de Faria

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Capa do livro “A Trança de Inês” de Rosa Lobato de Faria

A Comunidade de Leitores de Gouveia escolheu A Trança de Inês de Rosa Lobato de Faria para livro deste mês. Assim, irá debater este romance no próximo sábado, dia 25 de julho, pelas 15h00m, em ambiente on-line  e presencial, no Auditório da Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira de Gouveia, com as regras de separação e distanciamento físico definidas pela D.G.S.

 

Livro do mês: “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira

“O vento árido de Fevereiro trazia sempre ao Seminário doenças e mau agoiro. Era um vento esguio e furtivo, de pêlo no ar, rebrilhante e facetado muitas vezes de um sol frio de vidro. Recordo muito bem as suas unhas de arame, a sua presença nítida, escanhoada em azul, pura no esquadriado de arestas. Branco e arguto das geadas, tinha uma astúcia fina, penetrando, por qualquer fresta, nos compridos corredores e salões.

Deste modo, quando nesse ano começaram a cair de gripe alguns seminaristas, ninguém se surpreendeu. Mas certo dia, numa aula de Português, P.ᵉ Tomás perguntou:

— Quantos alunos faltam?

Contámo-los. Faltavam dez. Entreolhámo-nos surpresos, pensando só agora que, numa aula de trinta alunos, dez faltas era já muito. Mas depois, no salão de estudo, reparámos que havia muitas carteiras vazias em todas as divisões. Rapidamente, porém, foram caindo outros.

(…)

Mas a epidemia não passava. A toda a hora eu via, à minha volta, novas camas ocupadas, e então não houve remédio senão fechar o Seminário.” (Manhã Submersa de Vergílio Ferreira [1954], ed.ut. 11.ª ed., Amadora, Livraria Bertrand, 1983)

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Página manuscrita do romance “Manhã Submersa”

Entretanto, na abertura do livro de ensaios, Do Mundo Original, Vergílio Ferreira anota o seguinte sobre Manhã Submersa:

pequeno protesto contra a asfixia de todo o mundo fechado, de toda a sociedade fechada, para a qual achei um símile num pequeno mundo conhecido. Recordo o livro e descubro aí a imagem de vários problemas das sociedades normativas – desde o problema da liberdade, ao da arte ortodoxa – além do anúncio de uma problemática metafísica que viria a ocupar-me depois.” (Do Mundo Original [1957], ed. ut., 2.ª ed., Amadora, Livraria Bertrand, 1979: 18).

 

Livro do mês “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira

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Capa de Paulo Guilherme para a segunda edição de “Manhã Submersa”

A propósito do livro que a Comunidade de Leitores de Gouveia escolheu para ser lido este mês e debatido no próximo sábado, dia 20 de junho, deixo aqui um ensaio que publiquei na Curupira Revista do Grupo de Estudos Lusófonos, n.º2 de Novembro de 2013, intitulado:

Clausura e amputação em Manhã Submersa e Em Nome da Terra ou o alfa e o ómega do arquiprotagonista de Vergílio Ferreira

Trata-se de um trabalho que tem por objetivo estudar os dois romances de Vergílio Ferreira indicados no seu título, sob o signo da clausura em que se encontra o arquiprotagonista vergiliano na adolescência (Seminário de Manhã Submersa) e na velhice (Lar de Idosos de Em Nome da Terra). Nessa qualidade são ambos espaços engolidores da liberdade e da personalidade dos narradores-protagonistas, respetivamente o seminarista António “Borralho” e o juiz aposentado João Vieira. Mas enquanto António Borralho consegue abandonar o Seminário mesmo que para isso tenha de se sacrificar fisicamente (perde dois dedos da mão direita com um foguete), João Vieira já não tem qualquer pretensão em sair do Lar de Idosos (só uma vez realiza uma excursão pela cidade, mas para logo regressar, assustado, à segurança do Lar), pois nele já entra amputado da sua perna esquerda, pelo que a sua “fuga” é toda imaginária, ou seja, está toda na carta de amor que escreve à mulher morta, Mónica. Deste modo,

«a manhã de preto do início do percurso existencial do arquiprotagonista vergiliano deu lugar à noite branca dos seus derradeiros dias, essa noite do cursum peregi e da ressurreição de Mónica. Uma e outra vividas numa cronotopia de internato, já que tanto o jovem Borralho como o juiz reformado não têm casa. Manhã Submersa e Em Nome da Terra simbolizam, igualmente, uma longa invocação ao corpo: invocação disfórica e sob o signo da amputação física, tanto no passado agrilhoado ao regime disciplinar da educação jesuítica do Seminário, como no presente de um corpo em acelerada decrepitude sob a vigilância atenta da Directora do Lar. E uma invocação eufórica na perspectiva da revelação do rosto feminino que preenche o último testemunho escrito de António dos Santos Lopes como preenche toda a epístola de João Vieira a Mónica, a mulher morta que, de súbito, passa a existir intensamente na imagem da deusa do fresco de Pompeia, na incorruptibilidade do imaginário e na aparição da beleza absoluta de um corpo jovem e despido de mulher para o baptismo da escrita:

“- Jura-me que nunca hás-de envelhecer – disse-te.

– Juro.

– E que nunca hás-de morrer.

– Sim.

– E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.

– Juro.

Então baixei-me ao rio e trouxe água nas mãos em concha. E derramei-ta na cabeça imensamente. E disse, e disse

– Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.”» (FERREIRA, 1991:13)

Jorge Costa Lopes

 

Livro do mês – “Manhã Submersa” de Vergílio Ferreira

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Capa da primeira edição de “Manhã Submersa” (Ilustração de António Charrua)

A Comunidade de Leitores de Gouveia (C.L.G.) selecionou o romance Manhã Submersa de Vergílio Ferreira para retomar a sua atividade, no próximo dia 20 de junho, pelas 15h00m, em ambiente on-line  e presencial (Auditório da Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira de Gouveia, com as regras de separação e distanciamento físico definidas pela D.G.S.).

A escolha de Manhã Submersa para leitura e debate entre os elementos da C.L.G. foi inspirada pelo artigo de Ivo Rocha da Silva, “O confinamento na Manhã Submersa de Vergílio Ferreira” (jornal Público de 15 de abril de 2020 – LER AQUI), além de prosseguir o objetivo da C.L.G. de debater a leitura de um título por ano do patrono da Biblioteca Municipal de Gouveia. Assim, para Ivo Rocha da Silva,

“Manhã Submersa é de leitura obrigatória para os amantes da literatura portuguesa do século XX. Uma narrativa que obriga a aceitar inconscientemente a personagem-pretexto do autor, e através dela indagar as nossas passadas, expiar os nossos erros e explorar novos trilhos. Nestes dias de quarentena, resistindo à covid-19, quando o isolamento social surge como mal menor, não podemos comparar a nossa missão à de António e de todos os jovens de famílias miseráveis que se encerraram num seminário, em meados do século passado, somente para fugir à pobreza do seu tempo.”.

A clausura revela-se, na realidade, um tema axial de Manhã Submersa. E se não comparamos, como afirma Ivo Rocha da Silva, “a nossa missão à de António”, podemos, porém, perfeitamente comparar a família Borralho às famílias que habitam atualmente nas favelas brasileiras, pelo que também os Borralhos estariam hoje impossibilitados de cumprir, no tugúrio que habitavam, o confinamento obrigatório.

A clausura de António Borralho, protagonista de Manhã Submersa, é uma clausura imposta (o que não sucede com a personagem Celina de Onde Tudo Foi Morrendo que entra num convento por vontade própria) pela madrinha, D.ª Estefânia, e pela mãe que lhe coartam a liberdade do tempo da infância e, sobretudo, da adolescência, em nome da conquista do Paraíso pela madrinha e beata abastada e de uma futura segurança económica dos Borralhos, a família mais pobre da aldeia – ter um padre na família era assegurar, em pleno Estado Novo, o sustento dos mais próximos como sonham a mãe e o tio do protagonista deste romance de Vergílio Ferreira.

Ora, a pandemia provocada pela COVID-19 impõe, de algum modo, uma reflexão sobre o necessário equilíbrio entre  liberdade e segurança  (ver, a este propósito, o artigo “El gran dilema” de Javier Cercas na revista El País Semanal de 31 de maio passado, p.6).

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Leitura de um excerto de “Manhã Submersa” por João Rebocho

A propósito ainda do livro do mês da C.L.G., João Rebocho leu recentemente um excerto de Manhã Submersa,  leitura integrada na iniciativa “Saídas da Estante” (VER AQUI), promovida pela Rede Intermunicipal das Bibliotecas das Beiras e Serra da Estrela (RIBBSE).

“A Estrela” de Vergílio Ferreira

Entre os dias 30 de abril e 3 de maio, sempre às 15 horas, pode ser visualizado o espetáculo “A Estrela” em transmissão (feita em direto) AQUI (Facebook do Teatro Politeama).

Aproveitamos para transcrever a informação disponível na mesma página de Facebook do Teatro Politeama:

estrelacartaz-g“Em “A Estrela”, narra-se a história simples e cativante de Pedro, uma criança de 7 anos que um dia, à meia-noite, sobe ao alto de uma igreja, existente no cimo da Serra da sua aldeia, para roubar uma estrela ímpar. Não era uma estrela qualquer, era simplesmente a estrela mais bonita e brilhante do céu. Porém, o roubo é descoberto por um velho muito velho, e toda a aldeia se revolta contra aquele ato que assim defraudara o património comum. Quando se descobre a verdade, a mãe de Pedro exige que ele reponha a estrela roubada no seu lugar originário. Porém, ao restituir a estrela, Pedro ficará com a sua Estrela para toda Eternidade.

Filipe La Féria propõe transformar num maravilhoso e mágico espetáculo musical um dos mais belos contos dedicados à Infância da Literatura Portuguesa: “A Estrela” de Vergílio Ferreira.”

“Ficções” de Jorge Luis Borges – Livro do mês

Jorge Luis BorgesJorge Luis Borges, o autor de Ficções,  livro deste mês da Comunidade de Leitores de Gouveia, nasceu há 120 anos, no dia 24 de agosto de 1899, em Buenos Aires. O celebrado escritor argentino escreveu “Los Borges”, que aqui transcrevemos, dedicado aos ascendentes portugueses, essa “vaga gente” que “obscuramente” dá a sua alma a este poema:

“Nada o muy poco sé de mis mayores

Portugueses, los Borges: vaga gente

Que prosigue en mi carne, oscuramente,

Sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido

Y ajenos a los trámites del arte,

Indescifrablemente forman parte

Del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,

Son Portugal, son la famosa gente

Que forzó las murallas del Oriente

Y se dio al mar y al outro mar de arena.

Son el rey que en el místico desierto

Se perdió y el que jura que no ha muerto.”

(El hacedor, Obras Completas, 1974: 831)

 

“Ficções” de Jorge Luis Borges – Livro do mês de fevereiro

Capa de Ficções
Capa de “Ficções” de Jorge Luis Borges (Coleção Mil Folhas do jornal Público)

O encontro da Comunidade de Leitores de Gouveia (C.L.G.) deste mês será no próximo sábado, dia 15 de fevereiro, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira. E para um diálogo entre os seus elementos foi escolhido o livro Ficções de Jorge Luis Borges.

Segundo Vergílio Ferreira, Jorge Luis Borges, nascido em Buenos Aires, Argentina, em 24 de agosto de 1899, é um escritor de formação «europeia» e não «latino-americana»:

“porque a sua «ficção» é de tipo «problemático», porque, mais do que isso, é um homem sofisticadíssimo, podre de literatura, como diria o Eça. Já um dia distingui o «romance-espectáculo» do «romance-problema». A América do Sul privilegia o «espectáculo», como é de prever. Borges é um «intelectual» e as questões de «reflexão» centralizam toda a sua obra. É absolutamente inimaginável num povo jovem a sua história do Menard, refazedor do Quixote.” (in Conta-Corrente 3, 222).

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Jorge Luis Borges e Vergílio Ferreira, no Palácio de S. Bento, em 1984

 

10 de dezembro de 1920 – A Hora de Clarice

A Legião Estrangeira“Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa.”

Clarice Lispector in “O ovo e a galinha”